quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ao meu amor serei atento.

Porque o meu amor é dor.
No peito assustado do homem que chora.
Amor de susto em pensar perder o que não é propriedade,
mas é a graça que vem e abençôa e fica.

O meu amor sozinho,
que vaga pelos caminhos mais estreitos,
abre caminhos não desbravados
e se perde nas terras já vistas.

Como eu amo o meu amor desatento,
que se esquece de mim e quando fui nem percebeu.
Um amor de aquário e virgem,
curioso e delicado.

É o meu amor que dorme abraçado,
mesmo quando sonha com o pesadelo.
Amor de coragem e medo, desejo e lágrima
em um peito aberto e doado sem receio.

Amor meu, dos olhos meus, do corpo meu.
Me tem sem eu saber como, sem eu poder sequer deter.
Abre meu peito e também minha alma,
me toma e me liberta mesmo que em sofrimento.

Cabe em mim o que não cabe em ti,
amor do corpo finito pro imenso espírito que contém.

Sereia.

A sereia na calçada.
No chão de ladrinhos escuros.
Escamas que reluzem o prata das luzes de gás.

A calçada da sereia,
que é de escarro e sombra,
de passagem e paisagem monótona,
cadência contínua.

A sereia do mar,
a sereia do rio,
a sereia da água em todo o lugar.

Cospe sal seco,
misturado à fuligem.
Bate o rabo na pedra.
Não sai de onde está.

Ser, (h)ei-a.
Descabida.
Desconcertada.
Desconjuntada.
Deslocada.
Desparatada.
Desamparada.
Desacordada.
Desaguardada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Hidra.

As minhas mãos tentam exaustivamente segurar a água.
Eu bebo e o corpo sua, mija, saliva.
Eu tento absorver a àgua em toalhas, camisetas, lenços de papel.

Mas vem o calor e ela evapora.

Como me manter dentro da água sem afogar?
E como deixar que ela se vá sem que eu fique seca?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Baleia ou tubarão

Rasgar o ventre e sair pela boca.
É o que se faz,
quando o vazio mata o amor.

Rainstorm.

A água que brota do chão.
Que cai do olho.
Que faz sopa no travesseiro.

O corpo dobrado.
O corpo estendido.
Dobrado um sobre o outro.

A água enche o corpo e jorra.
O corpo bebe da água e borra.