quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Teu travesseiro de penas de ganso.

Escuta quando eu te digo
que é teu meu coração
e que é tua a minha vida.

Meus pés pisam mais forte
ao teu lado.
Minhas lágrimas caem aos montes
se te afastas.

Quero ser tua companhia,
te acompanhar junto e distante.
Quero te deixar ir,
pra te receber em abraços na volta.

Me deixa ser tua cama.
Me queira pra ser teu conforto.

Mas comigo esteja e seja:
inteiro e indispensável.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

As compras de Perséfone.

Perséfone foi às compras.
Se perdeu no meio do pomar.
Caiu em uma pilha de enlatados.
Encontrou uma novo lugar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A feiticeira e o (anti)nauta.

Ah Jasão ingrato
vai-te pra bem longe.

Me lançaste ao pó,
ao árido, à poeira seca
da terra que não dá frutos.
Me empoeiraste, Jasão.
Me tornaste opaca.

Te dei meus beijos, meu sangue.
Meu suor recebeste com mel,
mas me deixaste a morrer de sede ao teu lado.

Ah Jasão, tu não cabes mais em mim.
Me banhei na tempestade,
me hidratei até me afogar.
A chuva inundou meus passos,
me fez líquida e luminosa.
A chuva me fez liquidar tua presença em mim.

Hoje sou feita do que não te pertence, Jasão.
Sou feita do que és incapaz de entender e tocar.

Na tua terra rachada minhas gostas não se derramam,
não tentam mais escorrer pelas tuas fendas escuras, tuas paredes duras.

Sempre foste inábil para viver a chuva,
beber a enchente,
lamber a umidade
que invadia tua casa inóspita.

Jasão de barro quebradiço e farelento!
Precisas de mais para virar terra fértil, lar acolhedor!

Agora eu sou pomar, Jasão!
Pomar molhado de orvalho e carregado de frutas.
Minhas árvores renasceram no temporal.
A água limpou tua névoa seca de areia ao vento.
Sou verdejante outra vez.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ao meu amor serei atento.

Porque o meu amor é dor.
No peito assustado do homem que chora.
Amor de susto em pensar perder o que não é propriedade,
mas é a graça que vem e abençôa e fica.

O meu amor sozinho,
que vaga pelos caminhos mais estreitos,
abre caminhos não desbravados
e se perde nas terras já vistas.

Como eu amo o meu amor desatento,
que se esquece de mim e quando fui nem percebeu.
Um amor de aquário e virgem,
curioso e delicado.

É o meu amor que dorme abraçado,
mesmo quando sonha com o pesadelo.
Amor de coragem e medo, desejo e lágrima
em um peito aberto e doado sem receio.

Amor meu, dos olhos meus, do corpo meu.
Me tem sem eu saber como, sem eu poder sequer deter.
Abre meu peito e também minha alma,
me toma e me liberta mesmo que em sofrimento.

Cabe em mim o que não cabe em ti,
amor do corpo finito pro imenso espírito que contém.

Sereia.

A sereia na calçada.
No chão de ladrinhos escuros.
Escamas que reluzem o prata das luzes de gás.

A calçada da sereia,
que é de escarro e sombra,
de passagem e paisagem monótona,
cadência contínua.

A sereia do mar,
a sereia do rio,
a sereia da água em todo o lugar.

Cospe sal seco,
misturado à fuligem.
Bate o rabo na pedra.
Não sai de onde está.

Ser, (h)ei-a.
Descabida.
Desconcertada.
Desconjuntada.
Deslocada.
Desparatada.
Desamparada.
Desacordada.
Desaguardada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Hidra.

As minhas mãos tentam exaustivamente segurar a água.
Eu bebo e o corpo sua, mija, saliva.
Eu tento absorver a àgua em toalhas, camisetas, lenços de papel.

Mas vem o calor e ela evapora.

Como me manter dentro da água sem afogar?
E como deixar que ela se vá sem que eu fique seca?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Baleia ou tubarão

Rasgar o ventre e sair pela boca.
É o que se faz,
quando o vazio mata o amor.

Rainstorm.

A água que brota do chão.
Que cai do olho.
Que faz sopa no travesseiro.

O corpo dobrado.
O corpo estendido.
Dobrado um sobre o outro.

A água enche o corpo e jorra.
O corpo bebe da água e borra.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Máquina de café.

Máquina de café.
Máquina de lavar.
Máquina de costurar.
Máquina de triturar.

Aperta o botão.
Liga.
Fast.
Slow.
Clean.
Desliga.

Máquina de café.
Máquina de furar.
Máquina de apertar.
Máquina de sufocar.

Aperta o botão.
Liga.
Morde.
Bate.
Cospe.
Desliga.

Máquina de café.
Máquina de apurar.
Máquina de requentar.
Máquina de fazer tudo igual.

Número nulo.

Vazzzzzzzzzzziiiioooo.
Tudo o que enchia era vento.
Ar - que escapava pelos pequenos poros e que não se mantinha.

Vuuussshhhh....

E de repente estava sozinha em meio ao imenso vazio de coisas derrubadas, folhas espalhadas e nada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Condiz. (conduz) [con-dor]

A mão caía sobre ela.
Arrastava com doçura e acorrentava o corpo e a vontade.
Tudo começava, aos poucos, a ser de maneira condicionada.
Condição de amor.
Pela dor e alegria de ser amor.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Homo ludens.

E o sexo é brincadeira.
É jogo de bicho.
Capuz, venda, cabra-cega.
Esconde e mostra.
Morde e suga.
Gira. Salta. Aperta e puxa.
Sal de mar e de suor na saliva.
Alegria e êxtase.
Catarse que purga o mal na infância dos adultos.
E exaustas, as crianças finalmente dormem.


terça-feira, 11 de maio de 2010

Gato e sapato.

Algoz de si.
Por se deixar refém.
Por aceitar a névoa.
Por parar de pensar.

Abandono de si.
Cabeça que se esvazia,
que quer parar de funcionar.

Coração que pede mais força.
Pra continuar a brincar.
De gato e rato.
De gato e sapato.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Page down.

English, please.

Not anymore.

Me bastam as palavras que vem da minha boca.
Me basta o que me consitui eu mesma, do lugar de onde venho, em tudo o que vejo e que me vê, o que ouço e que me escuta.

Ela cansou.
Ela viu e foi vista pelas mentiras.
Compartilhou a dança fantástica de fantasias do avesso,
ao som do vão que lhe sobressaltava.
Cambaleou depois de tanto rodar e caiu, no chão, de mármore frio, gelado.

Feliz mentira. Diversão sem arte. Cabide pronto.

Ela colocou óculos escuros para continuar, ainda, mentindo.
Sabe-se-lá por quanto tempo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Foi e é.

Foi a dor e foi o medo mais profundo.
Foi o corte feito à navalha.
Foi o sangue com gosto doce.
Foi a rua que se abriu por dentro.

Criou-se um fluxo de saliva, secreção, excremento, suor, paixão.

E a paixão também foi.

Falou-se muito.
Sorriu-se muito.
Tremeu-se muito.

E o tremor também foi.

Fugiu. Esquivou. Correu. Calou. Matou...
ou tentou matar.

Mas foi a vida quem retornou.
Foi a vida nas mãos, nos pés, nos cabelos curtos, na pele branca.
Foi viva pela primeira vez.
Depois da dor, depois do medo, depois do enjôo.

Olhou o espelho.
Se mostrou ao espelho.
Deixou ver.

Se viu.
Reconheceu.

E foi isso, o que não tem nome e que não se entende.
Foi o que aconteceu.

terça-feira, 16 de março de 2010

Medo em mim, de ti em mim.

E a paixão era ruim.
Pois tirava dela a vontade de ser livre.

Apaixonada, ela queria pertencer. Queria perder o direito de ser uma. Era dele, existia com ele e quereria o que com ele viesse.

Era assustador se ver de forma tão passiva, pacifica.
Tinha medo de isso amornar as aguas correntes dentro dela.
De amansar o animal selvagem e forte.

E se depois acabasse por se tornar um reflexo? E se perdesse o brilho proprio de quem pensa por si? E se depois se perdesse e morresse em si propria?

Essa vida em dupla aterrorizava...

No entanto, não conseguia desejar outra coisa.
O sentimento vinha mais forte do que qualquer razão disponivel.

Queria infinitamente o que mais temia.
E corria o risco.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Por mais e sempre.

Mais e mais forte e mais rápido e mais intenso.

Tudo o que parecesse metade não fazia sentido.

Era preciso ser inteiro, estar inteiro.
Era preciso ter a alma em jogo.

Desejo de se misturar até não mais existir sem ele.
Até fazer parte dele e tê-lo parte de si.

Uma vontade insana, demente.
Sufocada em prol da vida que poderia se esgotar ali.

Mas a vida ressurge na morte...
na morte do medo de ir longe demais,
em quem almeja a eternidade e nada mais.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vômito.

As mãos dele eram repugnantes.
O olhar dele causava náusea.

E mesmo que tudo isso ainda fosse somente o reverso do imenso desejo de tê-lo pra si...
ela o afastava e repelia.

Lutava contra si mesma, dolorida pelo estômago que se retorcia.

E não derramava uma única lágrima.

O corpo seco, árido como terra dura.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Aqui.

Segue-se o que se sente e é somente isso que aqui se encontra.